As bonecas Abayomi

As culturas (religiosas) africanas não se veiculam, somente, no correr das ideias filosóficas e nas possibilidades metafóricas da linguagem religiosa. Além das ideias que configuram os “padrões de pensamento”, o fazer religioso constitui aspeto determinante na vivência quotidiana. Nesse fazer religioso cabem os rituais, desde os ritos propiciatórios de natureza sacrificial, aos ritos iniciáticos, e aos grandes cultos público, e a própria arte, enquanto materializam da memória religiosa e expressão desses padrões de pensamento. Além dos artefactos talhados, em geral representando as divindades e os monarcas, aparecem outros dispositivos culturais como as bonecas. No quadro cultural africano, a boneca não é considerada, simplesmente, um brinquedo. Ela é, simultaneamente, uma metáfora e uma materialização de proposições culturais. Entre essas proposições culturais encontramos a representação de defuntos e a oferenda pelas boas colheitas, pela saúde e, muito particularmente, como incentivo à fertilidade.

É, neste último aspeto, que ela adquire maior relevo, porque a boneca tende a pertencer ao universo feminino. Não é por acaso que entre alguns povos africanos as bonecas são amarradas em torno da cintura das meninas, representando uma primeira etapa de encantamento do útero, propiciando o ventre feminino para a gestação saudável, uma vez que a beleza e a boa conceção da criança não dizem respeito ao biológico, mas antes ao cultural. Entre os Ashanti existe uma lenda/tradição oral, que relata a história de uma mulher que estando grávida esculpiu uma estatueta de madeira com as formas da criança desejada, tendo-a carregado consigo, às costas, até ao parto. A criança nasceu semelhante à estátua. Esta tradição oral é reproduzida entre as mulheres grávidas.

AS ABAYOMI

A boneca abayomi remete, em primeiro lugar, para o contributo cultural yorùbá à noção de africanidade no Brasil. Apesar de representar o coletivo das heranças africanas, razão pela qual não teria rosto, o seu nome é de tradição yorùbá, geralmente traduzido por “aquele(a) que traz felicidade/alegria”. Tal facto diz respeito à história da constituição das comunidades-terreiros brasileiros e a forma como a nagôcracia se instituiu a partir da hegemonia política yorùbá-nagô e do contributo dos pesquisadores, desde Nina Rodrigues a Roger Bastide, o grande exaltador da identidade nagô em face das demais africanas no Brasil.

Ora, em relação ao nome da boneca, apesar de poético, invocando uma imagem de bonecas confecionadas nos porões dos navios negreiros pelas mães para as suas filhas, a partir dos trapos rasgados das suas vestes, a verdade é que o nome abayomi não significa o transporte da alegria através daquela boneca. Àbáyọ̀mí é um nome atribuído a crianças que nascem sob terríveis circunstâncias, querendo dizer “fomos alvo de regozijo por parte do inimigo”. É um nome que invoca dor e derrota, não alegria.

No entanto, no quadro afro-brasileiro as bonecas Abayomi invocam o empoderamento feminino e a catarse da memória africana, traduzindo a força, a resistência e o poder feminino. Nesse quadro, tornou-se um instrumento de forte ação educativa dos movimentos negros, permitindo o cruzamento entre o recontar (e recompor) memória africana e a valorização da ideia de “ser negro” no Brasil. A sua história começa nos finais de 1980, com a artesã Lena Martins, educadora popular e militante do Movimento de Mulheres Negras, que procurava encontrar na arte popular um instrumento de consciencialização e educação afirmativa negras, estando, assim, na origem da Cooperativa Abayomi, fundada em 1988, no Rio de Janeiro, projeto que foi incluído na rede nacional contra a violência à mulher e da rede de mulheres negras latino-caribenhas.

Assim, através da arte foi possível reciclar referências africanas, lavando a mácula dos significados originais dos termos e encontrando um espaço para as bonecas africanas, instrumentalizando-as na ação afirmativa do ser negro e ser mulher negra no Brasil.

Cite this article as: Instituto Ixéxé, "As bonecas Abayomi," in Instituto Ixéxé para o estudo dos cultos Orixá e Vodun, accessed in 31 de Outubro, 2020, <https://instituto-ixexe.org/106/>.

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