O pai de santo exotizado: o padrão do sacerdócio candomblecista em Portugal

 

Igor Renó Machado [1] estudou o fenómeno migratório brasileiro para Portugal, destacando a forma como os imigrantes brasileiros fazem uso dos estereótipos e da exotização da figura de “ser brasileiro” no mercado de trabalho, revitalizando-a e empoderando-se a partir dela. Esse capital exótico e exotizado, está presente, como revelam Manuela Ribeiro e Otávio Sacramento [2] na prostituição brasileira na fronteira norte luso-espanhola. Ora, o cruzamento entre os dados fornecidos pelos autores evidencia um recurso à exotização como ferramenta de acomodação ao mercado de trabalho europeu que se reproduz no campo das religiões afro-brasileiras em Portugal, em particular no Candomblé.

Apesar do Candomblé ter chegado a Portugal em 1987, aquando da instalação do terreiro de Mãe Tina de Oyá, iniciada por Mãe Olga do Alaketo, a expansão da religião somente ocorre a partir do início do novo milénio, acompanhando as vagas migratórias do Brasil para Portugal. Com esse fluxo, inúmeros agentes religiosos brasileiros chegam a Portugal, na maioria dos casos em busca de situação profissional que não passava pela religião, mas que acabaram por reconhecer uma oportunidade de carreira diante de uma realidade sociológica de pluralidade religiosa, onde experiências Nova Era convivem com várias igrejas, mesquitas, templos hindus, sinagogas e um vibrante campo religioso de curandeirismo de inspiração católica [3]. Essa realidade licitou a multiplicação de espaços de culto afro-brasileiro, e os terreiros de candomblé propagaram-se, na sua larga maioria apresentando uma nova composição ao nível ritual, quer através do hibridismo com o imaginário português, quer através da presença de práticas rituais umbandistas, como a consulta de entidades, bem ainda pela reordenação dos modelos iniciáticos, que passam a assumir um caráter simplificado.

Na demanda pelo seu próprio espaço de ação, o sacerdócio do Candomblé inverte a conceção (já devidamente revista) de Ruth Landes de «cidade das mulheres», tornando-se, em Portugal, um espaço maioritariamente masculino e homossexual. Esse aspeto propaga o estereótipo do babalorixá, i.e., do pai de santo de Candomblé, construindo um ideal de sacerdócio muito mais próximo de Joãozinho da Gomeia [4] do que de Mãe Menininha. Nesse sentido, o estereótipo do pai de santo homossexual torna-se um ativo importante na consolidação do Candomblé em Portugal e na construção de sucessos no mercado religioso. Quanto mais exotizado e próximo ao estereótipo estabelecido maior a hipótese de consolidação no campo luso-afro-brasileiro. Ora, características que seriam, no campo clássico do Candomblé baiano e carioca, tomados como degeneração [5], no campo do Candomblé português operam como vetores de promoção. Ser homossexual e brasileiro, em particular possuir uma estética exotizada — com ojás, pano da costa, e elementos femininos — opera como fator diferenciador, empoderando um grupo de sacerdotes que aproveitam e consolidam um imaginário onde se justapõe religião e exótico.


[1] MACHADO Igor, 2007, “Reflexões sobre a imigração brasileira em Portugal”, Nuevo mundo, mundos nuevos, n. 7, http://nuevomundo.revues.org/5889; 2006, “Imigração em Portugal”, Estudos Avançados, v.20, n.57, pp. 119-135; 2003, Cárcere público: processos de exotização entre imigrantes brasileiros no Porto, Portugal, tese de doutoramento em Antropologia, Unicamp.

[2] RIBEIRO, Manuela; SACRAMENTO, Octávio, 2002, “Prostituição feminina no espaço transfronteiriço ibérico: um caso muito particular de circulação de pessoas”. Cadernos do noroeste, vol. 18, n.1-2, p. 205-227.

[3] MONTENEGRO, Miguel,  2005, Les bruxos: des thérapeutes traditionnels et leur clientèle au Portugal, Paris, L’Harmattan.

[4] LODY, Raul; SILVA, Vagner Gonçalves da, 2002, “Joãozinho da Goméia: o lúdico e o sagrado na exaltação ao candomblé.”, in Caminhos da alma Caminhos da alma Caminhos da alma: memória afro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, pp. 153-181.

[5] CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé, Rio de Janeiro: Pallas. 

Cite this article as: João Ferreira Dias, "O pai de santo exotizado: o padrão do sacerdócio candomblecista em Portugal," in Instituto Ixéxé para o estudo dos cultos Orixá e Vodun, accessed in 31 de Outubro, 2020, <https://instituto-ixexe.org/137/>.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *