Juntó: modos e desmodos no Candomblé

Segundo a cultura do Candomblé, ajuntó ou juntó designa os Orixás que acompanham o eledá (ẹlẹda), i.e., o Orixá que comanda o ori, a cabeça, da pessoa.[1] Trata-se de uma ordenação de natureza conceptual onde o sujeito é concebido como tendo, em regra, três Orixás, o primeiro que comanda e os outros dois que acompanham, os quais podem “tomar a dianteira” em determinadas circunstâncias, elaborando um quadro de referências que ajuda – na visão dos membros do Candomblé – a compreender e explicar a personalidade individual. O termo ajuntó ou juntó é objeto de grande discussão nas comunidades-terreiros. A explicação mais comum é que seria uma corruptela linguística de adjunto, ou seja, aquilo que se encontra unido ou ligado a algo considerado “primeiro”. No entanto, adjunto é uma palavra acentuada diferentemente de ajuntó. Todavia, se levarmos em consideração o facto de que as palavras em yorùbá possuem acentuação tónica na última sílaba, existe uma explicação similar plausível de que juntó derive do pretérito perfeito de juntar, “juntou”. Nesse cenário, juntó seria o Orixá que se juntou ao primeiro para formar uma tutela partilhada sobre a cabeça do sujeito, ainda que operando como “adjunto”. Explicação alternativa poderá residir na corruptela do termo yorùbá jùmọ̀, que quer dizer “junto”, “em companhia” [2]. Esta explicação etimológica encontra correspondência com a explicação popular de adjunto e com a proposta de corruptela do pretérito perfeito do verbo juntar.

Modos e Desmodos: a normatividade do juntó 

Não obstante as explicações etimológicas para o termo juntó, importa aqui trazer a debate a questão do cânone normativo do Candomblé e a sua universalidade no quadro dos terreiros. Segundo a ortopraxia baiana existem combinações específicas na formação do juntó aquando da iniciação de um neófito. São exemplo: Oxum Apará (Ọṣun Àparà) que vem acompanhada de Ogum Mejê (Ògún Méje) ou Logunede (Lògún-Ẹdẹ) que vem acompanhado de Oyá (Ọya). Tal facto diz respeito à construção da normatividade ritual e cosmológica do Candomblé, correspondendo ao que os “antigos” [3] consideraram como equilibrado e funcional. No entanto, se tais combinações foram padronizadas no Candomblé da Bahia, em particular nos terreiros históricos de Salvador, constituindo um acervo que compõe a «tradição», essa normativa não se universaliza. Noutros lugares do Brasil, correspondendo a exercícios de adaptação e ressignificação próprias de diásporas secundárias, as combinações na formação do juntó ou ajuntó, são feitas de outra forma, dizendo respeito por um lado à interpretação dos zeladores sobre o equilíbrio do ori do iniciado, ou seja, a combinação seria feita em função de uma conceção de equilíbrio de personalidade e “caminho” na vida do sujeito, por outro ao jogo de búzios. Nesta última possibilidade, a pessoa Olorixá (sacerdote/isa) limita-se a “respeitar” a combinação revelada pelo jogo-de-búzios e que traduz a “essência” do sujeito. Todavia, sucedem casos em que a personalidade do sujeito é demasiado “quente” ou demasiado “fria” [4], pelo que o sacerdote/isa altera o juntó para equilibrar a energia dos sujeitos. Uma pessoa cujo juntó é formado por Ogum, Exu e Oxóssi poderá ter Exu substituído por Yemanjá para “arrefecer” o ori.
Assim, o que está em causa é, por um lado, a fidelidade à «tradição» elaborada nos terreiros de Salvador e, assim, ao corpus ortopráxico candomblecista ab initio, e, por outro, a concepção de personalidade e equilíbrio psicológico-emocional-místico do sujeito.


[1] sobre o ori ver Ferreira Dias, João, À cabeça carrego a identidade: o orí como um problema de pluralidade teológica, Afro-Ásia, 2014, n.49, pp.11-39.
[2] A Dictionary of the Yoruba Language, Church Missionary Society (CMS), 1913, p. 150.
[3] a categoria de “antigos” corresponde a uma determinação sociológica na qual os mais velhos gozam de estatuto particular. Sobre o lugar dos mais velhos no Candomblé ver Eugênio, Rodnei William, “A bênção aos mais velhos – Poder e senioridade nos Terreiros de Candomblé”, Dissertação de Mestrado, Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil, 2012.
[4] ver Johnson, Paul Christopher, Secrets, gossip, and gods: the transformation of Brazilian Candomblé, Oxford: Oxford University Press, 2002. Neste trabalho o autor menciona, com acuidade, a  cosmovisão presente ao Candomblé sobre a necessidade de equilíbrio entre energias “quentes” e “frias”. A mesma ideia está presente num trabalho de Matory sobre o culto de Xangô em Oyó – Matory, James Lorand, Rival Empires: Islam and the Religions of Spirit Possession among the Ọyọ-Yoruba, American Ethnologist, 1993, 21(3), pp. 495-515.

Cite this article as: João Ferreira Dias, "Juntó: modos e desmodos no Candomblé," in Instituto Ixéxé para o estudo dos cultos Orixá e Vodun, accessed in 5 de Abril, 2020, <https://instituto-ixexe.org/182/>.

imagem: Sandra Souza Leite

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