A Casa de Oxumarê e o Refluxo Atlântico

O designado «Atlântico Negro» não foi, jamais, um espaço passivo de comércio, em primeiro lugar de escravos e, segundo, de objetos e produtos alimentares. A ideia de uma África transposta ao Brasil e ali cristalizada alimentou os primórdios da antropologia africanista – de Nina Rodrigues a Herskovits –, mas jamais correspondeu à realidade dinâmica e à plasticidade dos fenómenos religiosos afro-diaspóricos. Se a cristalização é um fenómeno imaginado pelos primeiros pesquisadores – uma espécie de fetichismo teórico, na esteira do invocado por Matory em The Fetish Revisited  – a superioridade nagô e a sua oposição às tradições bantas, idealizado sobretudo por Roger Bastide, não foge à regra.

Ao contrário da longa imaginação científica, a circulação religiosa afro-diaspórica, quer no Atlântico quer no interior do Brasil (para o caso concreto) foi permanente e determinante na constituição de uma sobrevivência adaptada no Novo Mundo, e de uma reciclagem de saberes entre ambos os lados do Atlântico. Com efeito, a teologia do conceito de Àṣẹ é prova disso mesmo, com uma influência da diáspora sobre a conceção autóctone yorùbá de «energia-vital». Do mesmo modo, o regresso de alguns importantes sacerdotes a África teve fortes implicações na estruturação ritual dos cultos Òrìṣà e Vodun, fenómeno de que poderemos citar Ìyá Nàso Oká e o seu marido Bàbá Ásíká, ligados à fundação do Candomblé do Engenho Velho.

Ora, os fluxos e refluxos africanos não podem ser, portanto, desconsiderados na formação de uma ontologia dos cultos no eixo atlântico. As viagens das famílias atlânticas produziu um continuum importante entre o Brasil e a África, com um trânsito de artefactos, saberes e sacerdotes, processo que depois do fim do comércio atlântico Pierre Verger viria a retomar, recriando as pontes atlânticas e recuperando o desejo de um resgate por parte dos religiosos brasileiros, com as suas fotografias e os seus relatos etnográficos.

A reafricanização do Candomblé e o resgate africano no Brasil

 Como menciona Capone, o processo de reafricanização é fundacional, sempre lá esteve. O que muda, então, para se distinga Candomblé baiano de reafricanizado? Em primeiro lugar o fluxo atlântico deixou de ser um facto, um processo contínuo. Esta situação gerou uma consolidação ortopráxica dos cultos aos Òrìṣà e Vodun em terras brasileiras. No entanto, a partir de 1960, ao abrigo de acordos bilaterais entre governos brasileiro e africanos, uma nova presença africana nigeriana e beninense, em particular a primeira, tornou-se uma realidade no país, abrindo espaço para uma procura de saberes, primeiramente linguísticos, posteriormente litúrgicos. Este fenómeno tornou-se particularmente evidente em São Paulo, espaço de parcas ligações ao Candomblé baiano e onde se evidenciou uma crise de identidade, nascendo uma busca por uma legitimação e autenticidades religiosas bifurcadas: por um lado através da filiação a terreiros históricos de Salvador e, por outro, através de agentes religiosos de outras geografias, aqui com nova bifurcação, agora entre África e Cuba.

Destarte, um fenómeno de recuperação da “pureza” africana ganha novo dinamismo, com um intenso refluxo atlântico de objetos e sacerdotes, com viagens de Cuba para o Brasil, do Brasil para Cuba, do Brasil para África e de África para o Brasil. Esta situação adquire, consequentemente, uma dimensão mercadológica, com uma elevadíssima oferta de serviços religiosos por parte de nigerianos, que cada vez mais procuram oferecer os seus serviços na internet, particularmente por via do Facebook. Nesse quadro, a circulação atlântica deixa de operar apenas num sentido de templos que buscam modificar os seus modos rituais, introduzindo padrões rituais e cosmológicos da África coeva e imaginados como mais autênticos, para passar a incluir as casas tradicionais. A mais recente viagem da Casa de Oxumarê ao Benim e do sacerdote Daagbo Vaudou ao Brasil é um importante sinal de um novo capítulo no fluxo atlântico.

Com efeito, o estudo dos fenómenos de circulação de saberes tem nos dias presentes um ânimo não antes experienciado. Os fenómenos de reafricanização mencionados, com as iniciações em Ifá e as reiniciações nos cultos Òrìṣà e Vodun em terras africanas, embora cada vez mais evidentes e dinâmicos, afiguram-se processos situados, uma vez que a novidade reside, agora, na forma como no continente africano começam a ser incorporados elementos brasileiros. O momento é singular, com um reconhecimento de uma autenticidade preservada no Novo Mundo. Ou seja, da mesma forma que aqueles que se reafricanizam nos dias correntes em África, imaginado uma autenticidade africana em terras nativas, do lado africano parece emergir uma ideia de preservação de cultos na diáspora. Cultos e saberes esses que teriam sido perdidos pela marcha da história escravocrata e pelo colonialismo, e que importam hoje serem recuperados. Desta forma, acontecerá em Ọ̀yọ́, capital simbólica do “império que já não é”, a construção de uma templo dedicado a Òṣùmàrè, através de um compromisso entre o Aláàfin daquela cidade, o monarca do velho império, e a Casa de Oxumarê de Salvador, o qual

será construído dentro dos padrões africanos para não interferir no conjunto arquitetônico da cidade. Porém, o culto será realizado estritamente dentro da tradição religiosa preservada na Casa de Oxumarê, em Salvador da Bahia. De acordo com Baba Pecê, “o cuidado de realizar o culto na tradição brasileira é também uma forma de afirmar a importância das tradições de culto da diáspora. Ou seja, é também um reconhecimento da África perante as tradições que foram transmitidas pelos nossos ancestrais africanos e preservadas na Bahia ao logo de séculos, apesar do contexto histórico de extrema opressão”.  

Chegamos, portanto, a um tempo novo. Depois da implantação dos cultos Òrìṣà e Vodun no Brasil, das viagens de retorno e do fluxo de saberes e artefactos, e de um fenómeno de reafricanização que imaginou uma intemporalidade ritual em África, temos o momento em que os processos rituais estabelecidos no Brasil são concebidos como autênticos e alvo de resgate africano. O fluxo e refluxo está de volta, e o Atlântico reanima-se com nova circulação entre as costas.  Afinal, a porta e árvore do esquecimento não produziram efeito.

Photo: http://www.metisrecords.com

Cite this article as: João Ferreira Dias, "A Casa de Oxumarê e o Refluxo Atlântico," in Instituto Ixéxé para o estudo dos cultos Orixá e Vodun, accessed in 25 de Fevereiro, 2020, <https://instituto-ixexe.org/237/>.

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