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O Cavalo na cultura Yorùbá e no Candomblé

Dallas Museum of Art

Presente no brasão da república nigeriana, o cavalo está profundamente ligado à cultura do país, desde os povos islâmicos que o introduziram até aos yorùbá. Estima-se pelo ano de 1400 o estabelecimento de Òyó como cidade. De acordo com Stride & Ifeka (1971), o primeiro monarca de Òyó teria sido Oranmiyan Omoluabi Odede, originário de Ifé, que viria a ser sucedido pelo seu filho mais velho, Dada Ajaká, um rei desprovido de espírito militar que viria ser deposto, sendo sucedido por Sàngó, o seu irmão mais novo, que se revelaria um monarca extremamente combativo. Após a morte deste, Ajaká teria regressado ao trono, apresentando-se muito mais violento e combativo. Todavia, seria Kori, sucessor de Ajaká, a conquistar a área que se denomina por Òyó metropolitana, iniciando-se um período de um século de enorme expansão. Com a morte do Aláàfin Olúwásò e a entrada em cena do seu filho, o oitavo Aláàfin, Onigbogi, Òyó enfrenta o colapso às mãos do poderoso exército Nupé, a quem os Òyó chamavam de Tapá, e que eram liderados por Tsoede (Stride & Ifeka 1971), por volta de 1535, tendo a família real partido para o exílio no reino de Borgu (Oliver & Atmore 2001). Este período de exílio durou 80 anos, durante os quais os Nupe tomaram conta da região de Òyó. O séc. XVII marca o período da reconquista de Òyó, graças a um exército bem organizado, com fortes armaduras e, acima de tudo, montado a cavalo. Com um novo poderio militar, Òyó é reconquistado e uma nova capital é erigida, Òyó-Igboho.

O Cavalo na Religião

Este pequeno trecho histórico introduz o tema do cavalo. Na cultura Yorùbá o cavalo é associado, portanto, à realeza, representando a superioridade do reino de Òyó. De acordo com fontes orais e textuais, Sàngó era um exímio cavaleiro, tendo possuído um estábulo real de 10.000 cavalos. Tal aspeto está extremamente presente no culto de Sàngó, onde se afirma que os seus iniciados, élégún Sàngó, são montados por aquele. Ao mesmo tempo, devido à velocidade que o cavalo possui, permitindo deslocações rápidos e a longas distâncias, ele está associado ao raio, arma mítico-natural que Sàngó usaria para derrotar os inimigos.

No Candomblé, o cavalo está igualmente presente, na vertente mitológica, na vertente musical e na vertente coreográfica. Com efeito, se no culto de Òsóòsì (Oxóssi) está bastante evidenciada a presença do cavalo, uma vez que durante o xirê — i.e., a parte louvativa do Candomblé que precede a invocação dos Òrìsàs (Orixás) para o transe –, no momento em que Oxóssi é saudado, os membros do terreiro presentes à “roda” executam os gestos da montada, puxando as rédeas do cavalo, de um lado para o outro, indicando mudança de percurso, no caso de Sàngó (Xangô) tal aspeto não é particularmente evidente ou não se encontra difundido entre os membros do Candomblé. Não obstante, é precisamente no seu culto que de forma mais evidente o cavalo está presente, com enorme ênfase no transe ritual. A dança de Sàngó com as mãos fechadas e os braços estendidos, lado a lado, é commumente interpretada como simbolizando o porte dos machados de gume duplo (oxé) e/ou do sère (xére; instrumento contendo as sementes que invocam o som da chuva). Todavia, esta dança representa, pelo menos igualmente, a montada de Xangô, feroz, em direção à batalha. Ao mesmo tempo, é entoado o ritmo designado por Alujá. O alujá é um ritmo rápido, de feição militar, cujas variações produzidas no atabaque maior, o hwm, o solista, variações designadas por “dobras”, reproduzem o avanço da cavalaria de Òyó em carga sobre o inimigo.

[imagem de cabeçalho de Pierre Verger]

Cite this article as: João Ferreira Dias, "O Cavalo na cultura Yorùbá e no Candomblé," in Instituto Ixéxé para o estudo dos cultos Orixá e Vodun, accessed in 25 de Fevereiro, 2020, <https://instituto-ixexe.org/17/>.